Entre o Novo e o Velho Mundo: a poesia de
Cláudio Manuel da Costa
A
profunda tensão que marca a poesia de Cláudio
Manuel da Costa, e se manifesta quase sempre
sob o tema da impossibilidade amorosa, é
de fato conseqüência de um conflito mais
amplo, em que se reflete o lugar ambíguo
de onde fala o poeta. Colono nascido no
rude contexto das Minas e formado pela prestigiosa
Universidade de Coimbra, o erudito embuído
de valores e formas veiculadas pela cultura
européia, confronta-se incessantemente com
a impossibilidade de se desfazer de uma
alteridade rústica e envergonhada. Por outro
lado, a vivência européia o situa num momento
de crise e transformação: a decadência da
monarquia absolutista abre espaço à ascensão
da classe média às insígnias do saber e
do poder. O lugar de onde fala Cláudio Manuel
é portanto uma encruzilhada entre o Novo
e o Velho Mundo, não apenas no sentido espacial,
como também temporal. Ocupá-lo é elaborar
um complexo sistema em que se busca articular
a forte tradição seiscentista, de cunho
barroco, com o novo horizonte filosófico
e político que se esboça na Europa e as
primeiras manifestações de uma cultura emergente
no áspero contexto das minas coloniais.
Não
se pode ainda falar de uma consciência nacional
mas já se pode detectar, no pré-iluminista
Cláudio Manuel, a consciência de uma identidade
cultural que não mais se confunde com a
lusitana e se afirma gradativamente, buscando
formas para sua expressão. Entretanto, essa
relação se estabelece não com o Brasil,
mas com Minas, que é, sempre, a pátria.
E naturalmente ela não é individual, mas
coletiva: lembre-se de que o projeto de
independência dos inconfidentes tinha em
vista a instalação de uma república em Minas.
A
inconfidência de Cláudio realiza-se mais
no nível retórico que no da ação política.
Ressentido de seu enraizamento na estética
barroca, já então ultrapassada, o poeta
estabelece, no prólogo das Obras, relações
de hostilidade com uma imagem de leitor
que não é mais o cúmplice leitor seiscentista,
agudo e discreto, mas um crítico moderno,
que lhe censura o 'cattivo gusto' e cobra
valores arcádicos. Entretanto, ainda que
proscritos pelo novo gosto e não mais adequados
à expressão de uma sociedade que se confronta
com os primeiros indícios de empobrecimento,
os modelos seiscentistas permitem, em sua
ostentação de pompa e poder, a encenação
de um universo tenso e dialético, prestando-se
com eficácia à representação da ambigüidade
colonial.
Solicitado
pelo topos arcádico, o poeta tenta em vão
atualizar no contexto local seus rios cristalinos,
as bucólicas choupanas de seus pastores,
os prados verdejantes onde guardam seus
rebanhos e cantam delicados amores, à sombra
de álamos sombrios e frondosas faias. A
face brutal e ávida dos garimpos excede
e deforma as máscaras idealizadas de pastores
e ninfas, sob as quais o mundo aristocrático
europeu encena seu fim e assinala, sob a
forma mítica da Arcádia, o surgimento de
uma nova ideologia. Atribuindo a dificuldade
em aplicar a retórica árcade ao ofuscamento
dos bens simbólicos pela materialidade excessiva
do ouro, o poeta se desconsola: Não são
essas as venturosas praias da Arcádia, onde
o som das águas inspirava a harmonia dos
versos. E busca outra solução: não sendo
possível transplantar a paisagem arcádica
para a aspereza das minas, ele tenta na
Fábula do Ribeirão do Carmo conferir às
águas turvas e barrentas do pátrio rio o
estatuto de objeto literário, inventando-lhe
uma origem mítica. Mas também essa tentativa
se frustra: a apropriação de padrões estéticos
europeus revela-se um roubo inútil, inoperante
no espaço físico e mental da Colônia, e
demonstra a inaptidão da retórica clássica
para representar esteticamente uma natureza
selvagem, não prevista nos códigos literários
existentes.
A
impossibilidade de implantar o cenário da
Arcádia nas Minas sem passado, onde o presente
apenas começa a ser extraído da terra, abre
à poesia de Cláudio Manuel uma dimensão
iluminista, manifesta sobretudo no poema Vila Rica. Aí, a referência fundamental
não é o modelo oficial de epopéia clássica
e barroca, que se estende de Virgílio a
Tasso, mas, surpreendentemente, Voltaire,
o bom autor mencionado no Prólogo. Como
ele, Cláudio Manuel tenta adaptar os gêneros
clássicos ao terreno ainda não delimitado
de um novo recorte ideológico do mundo.
Experimenta no Vila Rica os mesmos problemas
e soluções encontrados por Voltaire na Henriade,
da dificuldade de implementação da retórica
épica à construção de um discurso claro
e coerente, tendo por pressuposto a veracidade
dos fatos, atestada por documentação exaustiva
e confiável. Embrionário e ainda não codificado,
esse novo discurso aloja-se nas margens
do texto, sob a forma de notas e do ensaio
introdutório intitulado Fundamento Histórico.
Tais procedimentos, raros em poesia, constituem
no Vila Rica um discurso em prosa paralelo
ao poema e exercem uma função que a forma
épica não pode assumir: a prática de uma
nova inteligibilidade, a reclassificação
dos saberes. Seus critérios radicalmente
diferentes dos que sustentam o poema desentronizam
o modelo épico e instituem o moderno discurso
da história.
|