Chica da Silva
Filha de uma negra, Maria da Costa, e um
branco, Antônio Caetano de Sá,
a escrava Chica da Silva pertencia a Manoel
Pires Sardinha, com quem teve seu primeiro
filho, Simão, em 1751. Pode ter sido comprada
ou libertada a pedido de João Fernandes
de Oliveira, que chegara ao arraial em 1753
para exercer o cargo de contratador, que
o pai, que tinha o mesmo nome, conquistara
junto à Coroa treze anos antes.
Entre 1763 e 1771, o casal Chica e João
Fernandes morou na construção
hoje conhecida com o nome de Casa da Chica da Silva.
A relação dos dois, apesar
mais intensa, não foi um caso isolado
na fortemente hierarquizada sociedade do
século XVIII. Era comum o envolvimento
em homens brancos de destaque social e suas
escravas. No entanto, os filhos destes relacionamentos
não eram legalmente reconhecidos,
permanendo em branco o nome do pai nas certidões
de nascimento.
Chica tinha todos seus desejos atendidos
pelo amante. Como não conhecia o
mar, João Fernandes mandou construir
em sua chácara, no bairro da Palha,
um navio com capacidade para dez pessoas.
O navio, com mastros e velas, navegava no
lago da chácara junto a pequenos
barcos disponíveis para os convidados
das grandes festas que Chica oferecia à
sociedade local. Um orquestra particular
e um "Teatrinho de Bolso" eram outros luxos
que embalavam as recepções.
Em 1770, João Fernandes foi obrigado
a voltar para Portugal para prestar contas
de sua atuação como contratador
e rever o testamento deixado pelo pai, o que determinou
o afastamento definitivo dos dois.
A preocupação de Chica então
voltou-se exclusivamente para o futuro das
filhas: colocou-as no recolhimento de Macaúbas,
considerado o melhor de Minas, de onde a
maioria só saiu para se casar.
Embora nunca tenha se casado por impedimento
legal, Chica conquistou prestígio
na sociedade local e usufruiu bem das regalias
antes exclusivas da senhoras brancas, mesmo
depois do amante ter partido para Portugal.
Uma das provas dessa inserção:
ela pertencia às Irmandades de São
Francisco, Carmo (exclusica de brancos),
Mercês (de mulatos) e Rosário (negros).
Uma vez livre e rica, a ex-escrava pouco
fez para ajudar a legião de negros
que permanecia escravizada. Em 1754, apenas
três anos após ser libertada,
já era dona de escravos.
Não é consenso entre pesquisadores
como seria a aparência física
de Chica e se seria este o atributo que
seduzira o contratador. O historiador Joaquim
Felício dos Santos, que chegou a
recolher depoimentos de pessoas que conviveram
com Chica, não poupa palavras para
descaracteriza-la: "(...) não
possuia graça, não possuia
beleza, não possuia espírito,
não tivera educação,
enfim não possuia atrativo algum
que pudesse justificar uma forte paixão",
diz. Já Nazaré de Menezes diz o contrário:
"poderia ser grosseira, mas nunca odienta
e asquerosa (...) não fosse não teria inspirado
paixão tão ardente e duradoura".
Morreu em 1796 e foi enterrada na igreja
de S. Francisco de Assis, privilégio reservado
apenas aos brancos ricos.
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