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História do Brasil


A vida social e a Casa da Ópera em Vila Rica

A vida social

Ao contrário do que acontecia nas outras regiões brasileiras, marcadas pela economia agrária, a Capitania das Minas Gerais se caracteriza por uma formação urbana com numerosas atividades profissionais, reunindo não só mineradores mas também comerciantes, manufatureiros, artistas, funcionários públicos e intelectuais.


Trajes femininos - Carlos Julião, século XVIII.

A Coroa Portuguesa interessa-se apenas pelos rendimentos oriundos da exploração do ouro, repassando ao povo as despesas administrativas através de pesados impostos. O absolutismo da metrópole inviabiliza qualquer forma de organização social e política, proibindo até mesmo a fixação

As irmandades — corporações religiosas leigas que reuniam os homens segundo sua devoção cristã — firmam-se no contexto social da época, irradiando sua força em todas as atividades, sobretudo artísticas. Essas corporações promovem o agrupamento da população a partir do critério racial, determinando o aparecimento de três classes distintas: a de brancos, composta por portugueses, comerciantes e funcionários administrativos; a de negros, em sua maioria escravos; e a de mestiços, formada por artistas e manufatureiros. de ordens religiosas na colônia.


Ocupações domésticas - Moritz Rugendas, 1835.

Tanto negros quanto mestiços estão à margem da sociedade, discriminados pelos brancos, embora encontrem uma forma de atuação mais positiva. Os negros trabalham como escravos, mas podem comprar sua liberdade graças ao sistema trabalho-recompensa, característico da atividade mineradora. Os mestiços alcançam ascensão social desenvolvendo seu potencial criativo nas atividades artísticas, diante da aversão dos brancos pelo trabalho artesanal.

Essa maior abertura social possibilitou o aparecimento e a circulação de idéias que fazem de Vila Rica palco de variadas rebeliões políticas e grandes inovações estéticas. As pressões sociais decorrentes da rigorosa política implantada por Portugal resultam em conflitos, envolvendo as diferentes camadas sociais. É o caso da Inconfidência Mineira, movimento libertário ocorrido em 1789, no qual estavam envolvidos comerciantes, intelectuais, funcionários públicos, padres e militares de diferentes patentes.

De modo geral, a vida da população era simples e pacata. Os homens se dividiam entre as atividades profissionais existentes, cumprindo importantes tarefas religiosas junto às irmandades. Às mulheres restavam os trabalhos domésticos e o cuidado dos filhos. As residências mineiras tinham mobiliário rústico, feito em geral por artífices locais que adaptavam as tendências artísticas da época ao seu trabalho. Eram comuns móveis acrescidos de volutas e torções, seguindo o estilo barroco, ou pintados com flores e rocalhas assimétricas, em vermelho e azul, próprias do rococó.

O hábito religioso se estendia também às casas, com nichos embutidos nas paredes ou oratórios sobre as mesas com santos de devoção. Os passeios eram geralmente feitos a cavalo, e as famílias mais abastadas usavam carruagens e cadeirinhas de arruar, estas reservadas às mulheres, que eram carregadas por negros.

Festa do Divino Espírito Santo -
Henry Chamberlain, século XIX.

A vida social era pontuada por extenso calendário de festas religiosas. Comemorações sacras possibilitavam o convívio de camadas sociais diferentes, num clima festivo em que a religião extrapolava seu sentido espiritual para tornar-se um espetáculo de arte e fé. Nas procissões, as irmandades se enfileiravam em alas, e seus membros, vestidos com trajes próprios, carregavam santos e outros aparatos litúrgicos. O cortejo tomava as ruas, passando de igreja a igreja, com música e intervalos para sermões. Vestígios desses tempos podem ser vistos ainda hoje em importantes solenidades religiosas, como a Semana Santa e o Corpus Christi, comemoradas segundo a tradição setecentista.

Desse convívio permanente entre arte e religião, associado ao apogeu da produção aurífera entre 1730 e 1760, resulta um ambiente propício à expansão das artes. O barroco, difundido em toda a colônia, vai contribuir decisivamente para a perpetuação da fé, seduzindo os fiéis com sua força plástica expressionista.

Tropeiros e muladeiros - Henry Chamberlain, século XIX.

Nessa época, Vila Rica torna-se um dos principais aglomerados urbanos da América. Verifica-se um grande florescimento artístico e cultural. Profissionais diversos chegam a Vila Rica motivados pelas construções públicas e religiosas. As irmandades contribuem plenamente para o enriquecimento da colônia, contratando artistas arquitetos, escultores, pintores e músicos para reconstrução de seus templos e valorização de seus cultos e festas religiosas.

O ensino do latim é generalizado e parte significativa da população livre é alfabetizada. As famílias mais abastadas enviam seus filhos para estudar na Europa, e estes, em contato com autores latinos, enciclopedistas e iluministas, garantem a renovação sócio-cultural da colônia. Bibliotecas como a do inconfidente Cônego Luís Vieira, conhecida com o arrolamento de bens dos envolvidos na Inconfidência Mineira, confirmam a existência de uma população bem instruída, formada por poetas, compositores, historiadores, cartógrafos, botânicos e padres.

O teatro é o divertimento preferido, com atores vindos do Rio de Janeiro e até mesmo da França, embora as representações dependessem quase sempre do gosto do governador. Espetáculos de atores ambulantes e mímicos aconteciam nas ruas, em tablados montados nas praças e largos. A Casa da Ópera de Vila Rica é inaugurada no final do século XVIII com a presença de mulheres em seu elenco de atores, constituindo para a época uma evolução dos costumes.


A Casa da Ópera de Vila Rica

Por volta de 1770, o gosto pela atividade teatral, disseminado tanto nas camadas populares como na abastada classe de portugueses e comerciantes, leva o contratador de impostos João de Sousa Lisboa a criar a Casa da Ópera de Vila Rica. Além de construtor e proprietário, foi seu diretor por vários anos, assegurando a qualidade e variedade dos espetáculos.


À época da inauguração, o empresário contava com a simpatia do governador da Capitania, o Conde de Barbacena, a quem Cláudio Manoel da Costa dedicou seu drama musicado 'O Parnaso Obsequioso'. Cláudio Manoel tornou-se um assíduo colaborador da Casa da Ópera, escrevendo óperas e oratórias (peças de sentido religioso representadas segundo o calendário litúrgico da Igreja), como o drama São Bernardo, ou traduzindo libretos trazidos de Lisboa.

Logo no início, Souza Lisboa contrata atores e músicos de Sabará e do Tejuco (hoje Diamantina), encomenda peças em Lisboa, manda copiar ou compor músicas operísticas e introduz três atrizes no elenco que procura formar, contrariando o costume da época que não admitia mulheres no palco. Com a evolução artística da sociedade setecentista, poetas brasileiros passam a traduzir com maior freqüência libretos de óperas, e alguns músicos chegam a compor peças operísticas. No repertório colonial estavam incluídos autores estrangeiros, como Molière e Calderón de la Barca.

Em fins do século XVIII, o teatro está completamente incorporado à vida dos habitantes de Vila Rica. Apesar da morte de Souza Lisboa em 1778, a Casa da Ópera mantém seu prestígio. Em 1811, sua companhia encarrega-se da primeira temporada teatral do ano, apresentando 20 atores ao lado de uma orquestra com 16 músicos regidos pelo maestro Padre João de Deus de Castro Lobo.

Cristina Ávila
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