A
região onde hoje está Paraty era ocupada desde
tempos imemoriais pelos índios guaianá. Ali, numa
área relativamente pequena, esta tribo de costumes nômades,encontrava
excepcionais condições de sobrevivência.
As águas abrigadas da baía permitiam uma navegação
segura às pequenas embarcações indígenas. A
costa cheia de reentrâncias e com uma rede de pequenos
rios, cercados por uma vegetação exuberante, oferecia
peixe e caça em abundância, além de água
potável, lenha e frutos. A própria palavra 'parati'
tem origem no nome dado pelos índios a um peixe muito
comum na região.
Como
povo nômade, os guaianá abriram muitas trilhas,
algumas capazes de transpor o paredão formado pela
Serra do Mar - particularmente íngreme neste trecho
do litoral. As origens de Paraty estão associadas a
uma dessas picadas, incorporada a um caminho mais extenso
que, desde o século XVI, passou a ligar o planalto
paulista ao Rio de Janeiro. O porto de Paraty, cercado pelas
altas escarpas da serra, surgiu onde terminava a antiga trilha
dos guaianá. Dali, os viajantes seguiam pelo mar até
o Rio de Janeiro.
Não
se conhece exatamente o ano de fundação do povoado.
Alguns historiadores afirmam que entre 1540 e 1560 já
existia um pequeno núcleo no Morro da Vila Velha, atual
Morro do Forte, 25 braças ao norte do rio Perequê-Açu.
Sabe-se que entre 1574 e 1578, com o estabelecimento do Governo
Geral do Leste e do Sul na cidade do Rio de Janeiro, as comunicações
entre o Rio de Janeiro e a Capitania de São Vicente
se intensificaram, propiciando o deslocamento das populações
vicentinas para a região. Contribuía
para isso o fato de que os guaianá nesta época
já eram aliados dos colonos na caça e escravização
de outras tribos indígenas para trabalhar na produção
de açúcar. O
primeiro relato que dá notícias do porto de
Paraty é do inglês Anthony Knivet,
integrante da expedição de Martim Corrêa
de Sá, que passou por ali por volta de 1597.
De todo modo, no começo do século XVII o povoado
de nome Paraty já existia. Por volta de 1646, o núcleo
foi transferido para a baixada entre os rios Perequê-Açu
e Patitiba, onde hoje está o centro histórico.
A área foi doada por dona Maria Jácome de Mello
sob a condição de que a nova capela fosse construída
em devoção a Nossa Senhora dos Remédios.
Em 1667, depois de um movimento popular que exigiu a separação
de Angra dos Reis, a Villa de Nossa Senhora dos Remédios
de Paratii conquistou sua emancipação política.
Apesar deste fato, era ainda uma vila pobre, com cerca de 50
casas, a maioria de taipa e coberta de palha.
No
final do século XVII, ouro e diamante em abundância
são encontrados nas Minas Gerais. Mais uma vez, os
bandeirantes paulistas se valeram das trilhas abertas pelos
índios, desta vez para atravessar a Serra da Mantiqueira
e penetrar o sertão do país em busca dos metais
preciosos. Não demorou para que a rota dos guaianá,
cujo ponto final era Paraty, se integrasse ao Caminho do Ouro.
Considerando-se
que, para melhor fiscalizar o comércio de pedras e metais
preciosos, as autoridades portuguesas restringiam a abertura
de outros caminhos, Paraty afirmava-se então como importante
ponto de articulação, passagem obrigatória
para quem ia do Rio de Janeiro em direção à
região das minas.
Enquanto manteve sua posição estratégica,
no caminho das riquezas do interior do país enviadas
à Europa, Paraty esteve atrelada aos surtos de desenvolvimento
gerados pelos ciclos econômicos brasileiros.
O
Ciclo do Ouro gerou um intenso fluxo migratório rumo
ao interior do país, principalmente de portugueses. Boa
parte deste contingente passou por Paraty. A primeira metade
do século XVIII é marcada pelo florescimento econômico
da vila, que se tornou um movimentado entreposto comercial.
Obras
importantes são realizadas neste período, como
a construção do cais, da Igreja de Santa Rita,
da Igreja de Nossa Senhora do Rosário e de São
Benedito e da Igreja de Nossa Senhora da Conceição,
em Paraty-Mirim.
Com
o aumento da população na região das
minas, o abastecimento de víveres tornou-se um problema.
Os alimentos atingiam ali preços exorbitantes. Diante
deste quadro, Paraty começou a se estruturar para produzir
gêneros alimentícios e abastecer a zona mineira,
as vilas do percurso até lá e mais tarde o próprio
Rio de Janeiro. Foi esta atividade que sustentou a economia
da cidade quando, em 1728, foi aberto o chamado Caminho Novo,
uma alternativa que fazia a ligação direta entre
Minas Gerais e o Rio de Janeiro, excluindo Paraty da rota
do ouro.
Outra
atividade econômica importante no período foi
a produção de açúcar. Tratava-se
de um produto extremamente valorizado no mercado internacional
no final do século XVIII, levando os paratienses a
investir pesadamente no cultivo e beneficiamento da cana-de
açúcar. No auge da produção, a
cidade chegou a contar com mais de 250 engenhos de açúcar
e alambiques. A aguardente fabricada ali era considerado uma
das melhores do Brasil, chegando a ser exportada até
para outros países. Sua importância era tanta
que, por algum tempo, a palavra 'paraty' foi considerada um
sinônimo de cachaça.
No
início do século XIX, a transferência
da família real para o Rio de Janeiro gera um grande
aumento da demanda por gêneros alimentícios.
Isto
ocasionou a intensificação da ligação
marítima entre o Rio de Janeiro e Paraty, que se tornou
um dos centros de abastecimento mobilizados para suprir os altos
índices de consumo da nova corte.
Neste
mesmo período, o café começa a se destacar
como um produto capaz de reintegrar a economia brasileira
ao mercado mundial, depois da queda da produção
do ouro. No vale do rio Paraíba, a cultura cafeeira
encontraria as condições ideais para sua expansão.
Para escoar mais rapidamente a produção, o café
descia do planalto até alcançar os portos no
pé da serra - entre eles Paraty -, para dali seguir
pelo mar até o Rio de Janeiro. O novo ciclo econômico
permitiu à cidade reviver seus dias de prosperidade,
construindo praças, a Igreja de Nossa Senhora das Dores,
chafariz, mercado, escolas, a Santa Casa de Misericórdia,
novas casas e sobrados.
A
partir de 1830, o café passa a ocupar o primeiro lugar
na pauta de exportação de Paraty, junto com a
aguardente. Enquanto embarcavam o produto para a Europa, os
chamados 'barões do café', considerados os homens
mais ricos do país na época, compravam escravos,
especiarias e tudo de mais luxuoso que poderiam levar para o
planalto.
Com
a acumulação de capital gerada pelo ciclo cafeeiro,
os grandes fazendeiros trataram logo de aprimorar a infra-estrutura
de transporte para o escoamento mais eficiente da produção.
Na segunda metade do século XIX, a recém-inaugurada
ferrovia São Paulo-Rio de Janeiro, que passava pelo vale
do rio Paraíba, substituiu o caminhos precário
por onde as tropas de muares desciam a serra, levando o café
diretamente para a corte. Além de tirar Paraty da rota
do café, a ferrovia capturou toda a produção
agrícola do planalto que antes era obrigada a passar
pelo porto da cidade.
Isto significou a quase completa desativação da
antiga trilha dos guainá, marcando o início da
decadência da cidade.
Os
produtos locais, dependentes do transporte marítimo,
perderam de vez a competitividade. A abolição
da escravidão em 1888 agravou ainda mais a situação.
No final do século XIX, da população
que chegou a 16.000 habitantes em 1851, restariam apenas '600
velhos, mulheres e crianças'. Isolada e empobrecida,
à margem da modernização representada
pelas vias férreas e, posteriormente, pelas rodovias
que se abriam em todo país, Paraty entraria num longo
período de esquecimento.
Este
isolamento acabou servindo para manter intacto o harmonioso
conjunto arquitetônico de Paraty, além de preservar
os usos e costumes de seus habitantes. Em 24 de março
de 1966, a cidade é declarada Monumento Histórico
Nacional. Com a abertura da rodovia Rio-Santos, na década
de 1970, Paraty começa a atrair turistas de todo o
mundo, interessados não apenas em caminhar pelas belas
ruas do centro histórico, como também em explorar
as 65 ilhas e mais de 300 praias da região.
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