O antigo Arraial Novo do Rio das Mortes deu
origem à cidade de São João del-Rei. Os primeiros sinais de
ocupação do arraial remontam a 1704, quando o paulista Lourenço
Costa descobre ouro no ribeirão de São Francisco Xavier, ao
norte da encosta da Serra do Lenheiro. Nessa época, Lourenço
Costa trabalhava como escrivão no Porto Real da Passagem,
local onde Antônio Garcia da Cunha, genro e sucessor de Tomé
Portes del-Rei, explorava a travessia do rio das Mortes.
Com a descoberta, as terras são distribuídas
a várias pessoas que começam a explorar as margens do ribeirão.
Pouco tempo depois, o português Manoel José de Barcelos encontra
mais ouro na encosta sul da Serra do Lenheiro, num local chamado
Tejuco. Aí se fixa o primeiro núcleo de povoamento que daria
origem ao Arraial Novo de Nossa Senhora do Pilar, mais tarde
Arraial Novo do Rio das Mortes.
Como outros arraiais mineradores, o povoado
surge a partir de uma capela erguida em devoção à Nossa Senhora
do Pilar, ao redor da qual vão se fixando bandeirantes e aventureiros,
que chegam à região atraídos pelo ouro. A cada dia, mais uma
casa de taipa é levantada e, aos poucos, novas capelas e moradias
vão formando outros aglomerados urbanos.
As rivalidades e a disputa pela posse de datas
auríferas geram conflitos permanentes, que culminam na Guerra
dos Emboabas. Eram chamados emboabas os que não haviam nascido
na Capitania de São Vicente, hoje São Paulo, e que, para os
paulistas, não deviam receber terras em Minas Gerais. O conflito
teve como causas principais a exploração do ouro e o direito
de posse dos novos territórios conquistados. Assim, entre
1707 e 1709 paulistas revoltam-se contra os forasteiros, em
sua maioria portugueses, que, liderados pelo comerciante Manuel
Nunes Viana, saem vitoriosos do movimento.
Já bastante próspera, em 1713 a localidade
é elevada a vila e recebe o nome de São João del-Rei em homenagem
a Dom João V, rei de Portugal. No ano seguinte, é nomeada
sede da Comarca do Rio das Mortes. Desde os tempos de sua
formação, desenvolve-se aí uma vasta produção mercantil e
de gêneros alimentícios, resultantes tanto da atividade agrícola,
quanto da pecuária. Essa faceta vai possibilitar o contínuo
crescimento da localidade, que não sofre grandes perdas com
o declínio da atividade aurífera, verificado em toda a Capitania
das Minas Gerais a partir de 1750.
Nessa época a crise do sistema colonial agrava-se.
A exploração do ouro entra em franca decadência, e a Coroa
Portuguesa continua a exigir pesados impostos da população.
Essa situação conflitante faz crescer o nível de consciência
de setores intermediários da sociedade, levando padres, militares,
estudantes, intelectuais e funcionários das principais vilas
mineiras, como São João del-Rei, Tiradentes e Vila Rica, a
conspirar contra a metrópole.
Em poucos anos, o movimento conhecido como
Inconfidência Mineira toma corpo e ganha adeptos em cada arraial
e vila da Capitania das Minas Gerais. Grandes planos são traçados
tendo em vista a produção de bens de consumo aliada à liberdade
comercial, o que descartaria a política monopolizadora da
metrópole. A Vila de São João del-Rei é escolhida para abrigar
a nova capital. Porém, em 1789 o movimento é frustrado pela
denúncia do coronel Joaquim Silvério dos Reis, devedor de
somas altíssimas à Fazenda Real.
Graças à vocação comercial de São João del-Rei,
a sua feição colonial não é a mesma das demais vilas mineradoras
da época. Já em princípios do século XIX, ela se mostra amadurecida
comercialmente: lojas instaladas em elegantes casarões oferecem
todo tipo de mercadoria, desde as produzidas na comarca até
as importadas. O movimento de passantes, caixeiros-viajantes,
mulheres e crianças circulando pelas ruas confere-lhe um aspecto
alegre e colorido. Também é precoce o surgimento da imprensa,
assinalado pela fundação, em 1827, do 'Astro de Minas', o
segundo jornal de Minas Gerais na época.
Em 1838 a progressista Vila de São João del-Rei
torna-se cidade. Nessa época, possuía cerca de 1.600 casas,
distribuídas em 24 ruas e 10 praças. Ainda no século XIX,
contava com casa bancária, hospital, biblioteca, teatro, cemitério
público construído fora do núcleo urbano, além de serviços
de correio e iluminação pública a querosene.
Desenvolve-se, ainda mais, com a inauguração
em 1881 da primeira seção da Estrada de Ferro Oeste-Minas,
que liga as cidades da região a outros importantes ramais
da Estrada de Ferro Central do Brasil. Em 1893 a instalação
da Companhia Industrial São Joanense de Fiação e Tecelagem
traz novo impulso à economia local, a tal ponto que a cidade
é novamente indicada para sediar a capital de Minas Gerais.
Em junho do mesmo ano, o Congresso Mineiro Constituinte aprova,
em primeira discussão, a mudança da capital para a região
da Várzea do Marçal, subúrbio de São João del-Rei. Mas, numa
segunda discussão, o projeto inclui Barbacena e também Belo
Horizonte, um planalto localizado no Vale do Rio das Velhas,
onde existia o antigo Arraial do Curral del-Rei.
Com a escolha da região do Curral del-Rei
em dezembro de 1893, a importância econômica de São João del-Rei
diminui gradativamente. Mas a cidade não perde seu charme
colonial, sendo motivo de atenção dos modernistas brasileiros,
que a visitam em 1924. Ela é registrada na obra de algumas
das figuras mais representativas do movimento, como a pintora
Tarsila do Amaral e o escritor Oswald de Andrade. Em 1943
seu acervo arquitetônico e artístico, composto por importantes
edificações civis e religiosas, é tombado pelo Instituto do
Patrimônio Histórico e Artístico Nacional - Iphan.
A formação peculiar da cidade, que evoluiu
de arraial minerador para importante pólo comercial da região
do Campo das Vertentes, é responsável por sua característica
mais interessante: uma mescla de estilos arquitetônicos que
tem origem na arte barroca, passa pelo ecletismo e alcança
o moderno. Em São João del-Rei, é possível apreciar a evolução
urbana de uma vila colonial mineira, cujo núcleo histórico
permanece bastante preservado em harmonia com as construções
ecléticas do século XIX e as mudanças ocorridas no século
XX.
(Cristina Ávila) |