Casa de Gravura Largo
do Ó
Renascimento artístico
Entre 1984 e 1991 funcionou a Casa de Gravura
Largo do Ó em Tiradentes. Convidada por um pequeno grupo de
artistas que morava na cidade, especialmente Maria José Boaventura,
Lotus Lobo transfere-se para Tiradentes com a missão de montar
um ateliê de gravura, que fosse um espaço aberto e coletivo
para a criação artística. Lotus trazia em sua bagagem a experiência
pessoal e acadêmica de ter montando duas oficinas de litografia
em Belo Horizonte e lecionado a disciplina na Escola Guignard
e, também, na Escola de Belas Artes da Universidade Federal
de Minas Gerais.
Neste momento, inicia-se uma movimentação
peculiar em Tiradentes com artistas vindos de vários pontos
do país, especialmente de Minas Gerais. A Casa de Gravura
Largo do Ó estabelece-se como um espaço voltado para o fazer
artístico coletivo, reunindo jovens artistas que se fixavam
temporariamente na cidade. O trabalho de criação seguia tendências
pessoais, enquanto o processo de produção estimulava e resgatava
o trabalho de equipe em artes plásticas, sintonizando artistas
dos mais variados estilos na busca de cores e texturas desejadas
para seus trabalhos.
Como incentivador do projeto, Yves Alves logo
se encarregaria de adquirir cerca de 300 pedras litográficas
na extinta fábrica de rótulos das Indústrias Reunidas Fagundes
Netto, em Juiz de Fora. Desta forma, a oficina cumpriria outro
importante papel na área da gravura, resgatando o valor histórico
e artístico da litografia industrial. Instalados na Casa de
Gravura Largo do Ó, Lotus, Maria José e, também, o artista
Fernando Pitta, que já morava na cidade, desenvolvem intensa
pesquisa sobre a história da litografia em Minas Gerais, restaurando
antigas matrizes e imprimindo cópias de litografias originais
para a edição de catálogos que passam a compor o acervo da
oficina.
Com a Casa de Gravura Largo do Ó, Tiradentes
reconquista a atmosfera artística que tanto impressionou a
caravana dos modernistas em 1924, quando de sua visita a Minas
Gerais. Artistas renomados no cenário das artes plásticas,
como Carlos Scliar, Carlos Bracher, Marcos Coelho Benjamim
e outros, partilharam esta rica convivência, utilizando a
litografia como técnica básica para a elaboração de seus trabalhos,
mas, sobretudo, participando do diálogo fértil e duradouro
proposto pelos artistas Lotus Lobo, Maria José Boaventura
e Fernando Pitta e, também, pelo saudoso patrono do projeto
Yves Alves.
Ainda hoje, um número expressivo de artistas
de diversas partes do país estabelecem-se na cidade, anunciando
seu ofício em placas afixadas nas portas de antigos casarões.
O sentir e o olhar atento dos visitantes podem comprovar a
vocação artística de Tiradentes, que soube preservar suas
riquezas setecentistas e, além disso, valorizar novas formas
de expressão da arte brasileira.
Litografia em Minas Gerais
Litografia comercial ou artística?
Basta ter nas mãos uma antiga lata de fumo,
manteiga ou biscoito produzida nos séculos XIX e XX em Minas
Gerais para o apreciador lançar a si mesmo esta pergunta.
Emblemas rococós, molduras art noveau e detalhes art déco
ressaltam produtos e matérias-primas diversas em meio a paisagens
e elementos brasileiros. O apuro das formas e linhas, a qualidade
da impressão gráfica e, sobretudo, o estilo artístico destes
trabalhos revelam a primazia do caráter visual e lúdico nas
mensagens publicitárias veiculadas em rótulos e embalagens
típicos daquele período.
A litografia de arte
Antes mesmo da litografia de arte se firmar
no cenário artístico mineiro, a litografia comercial evidenciava
qualidades estéticas excepcionais, ultrapassando a barreira
do decorativo e inscrevendo-se no espaço da arte, sem importar
a finalidade utilitária e os modos de produção de determinados
objetos.
Assim, ao contrário do que acontecia com marcas
e rótulos, o trabalho litográfico gravado em utensílios domésticos,
como bandejas, pratos e latas de mantimentos, buscava em primeiro
lugar a sensibilização estética e não a comunicação publicitária.
Desta forma, os primeiros litógrafos que aqui se estabeleceram
podem ser considerados os fundadores da litografia de arte.
Em Minas Gerais, a primeira oficina litográfica
voltada exclusivamente para a atividade artística funcionou
no Centro Artístico Cultural de São João del-Rei. A oficina
foi montada em 1961 com o equipamento da extinta Gráfica Castello,
uma prensa e 200 pedras litográficas, adquirado pelo artista
baiano João Quaglia, que se juntou aos são-joanenses Geraldo
Guimarães, Sílvia Lombardi e aos padres David e Tiago do Colégio
Santo Antônio.
O trabalho desenvolvido repercutiu de tal
forma nos meios artísticos de Belo Horizonte, que a Escola
Guignard organizou um curso para Quaglia ministrar a seus
alunos, sob sugestão da aluna Lotus Lobo, que conhecera as
atividades do Centro Artístico e Cultural durante a Semana
Santa de 1963, em São João del-Rei.
O curso ministrado por Quaglia acaba por estimular
a criação do Grupo Oficina, formado por jovens artistas -
Lotus Lobo, Roberto Vieira, Klara Kaiser, Nívea Bracher, Paulo
Laender, Frei David, entre outros -, que passam a utilizar
a litografia como meio expressivo para suas atividades artísticas.
Trabalhando em conjunto, experimentam as possibilidades técnicas
da litografia, entre as quais se destacam a fidelidade ao
desenho original e o caráter de reprodutividade em série.
Em 1966, Lotus Lobo assume a disciplina de
Litografia, na Escola Guignard, onde vai formar inúmeros artistas
litógrafos, conjugando este trabalho a duas outras importantes
atividades: a de professora de Litografia da Escola de Belas
Artes, da Universidade Federal de Minas Gerais, e a de coordenadora
da Casa Litográfica de Belo Horizonte, que funcionou de 1978
a 1982. Em 1984, Lotus desliga-se de suas atividades em Belo
Horizonte para implantar a Casa de Gravura Largo do Ó, em
Tiradentes.
A litografia comercial
Em finais do século XIX, a incipiente industrialização
brasileira promove profundas transformações culturais no país.
Em Minas Gerais verifica-se novo surto de progresso econômico
com o crescimento de alguns setores da produção, especialmente
a economia agropecuária. Este setor dá origem a uma diversificada
linha de produtos - leite, manteiga, queijo e, também, artefatos
de couro -, que vão se transformar no que há de mais tradicional
no Estado.
Neste momento, a litografia passa a funcionar
como suporte de marketing na divulgação publicitária dos produtos
manufaturados, tendo como função primordial a captação do
interesse e da confiança de uma larga faixa de consumidores
pelos bens produzidos. Várias casas litográficas, especializadas
na criação e impressão de marcas, rótulos, embalagens e cartazes,
são criadas nos principais núcleos econômicos do país e equipadas
não apenas com instrumentos técnicos, mas também com mão-de-obra
especializada - desenhistas, transportadores e impressores
- vindos da Europa, especialmente da Alemanha, Itália e Áustria.
Privilegiada por sua posição geográfica, Juiz
de Fora torna-se o principal pólo econômico de Minas Gerais,
fazendo convergir para si os interesses de diversas regiões.
Nesta época, o artista Pietro Angelo Biancovilli instala a
primeira casa litográfica mineira, que passa a atender numerosa
clientela, realizando trabalhos diversificados de qualidade
técnica e artística comprovada.
O rápido crescimento da demanda das indústrias
brasileiras propiciou o aparecimento de novas oficinas litográficas
algumas instaladas em Juiz de Fora, uma em São João del-Rei
e outra em Palmira , que atendiam não apenas a clientes de
Minas Gerais, mas também do Rio de Janeiro, Espírito Santo,
Bahia e Goiás.
A enorme variedade de produtos determinou
certa especialização nestas oficinas, fazendo surgir as estamparias
para metal e as litografias gráficas. Nas primeiras eram feitas
impressões em folhas de flandres para produtos enlatados,
como manteiga, queijo, banha, fumo, biscoito, doce e bala,
e objetos manufaturados, tais como bandejas e latas para mantimentos.
Nas segundas, impressões sobre papel para produção de rótulos,
etiquetas, mapas, diplomas, cartões postais e cartazes publicitários.
Nos anos 50, a litografia perde terreno para
as novas técnicas de reprodução gráfica, baseadas no processo
fotográfico. O processo de impressão conhecido como offset
traz consigo a mecanização da reprodução e impressão, impondo
às oficinas litográficas a alternativa de se adaptar aos novos
tempos. Muitas delas acabam fechando suas portas, enquanto
outras substituem suas prensas por sofisticados equipamentos
mecânicos, encerrando o período mais significativo da litografia
comercial no país.
As poucas oficinas sobreviventes voltam-se
então para uma pequena parcela das indústrias regionais, ainda
não integradas ao novo sistema de consumo. O equipamento das
oficinas é vendido aos ferros-velhos, à exceção de algumas
prensas e pedras, muitas ainda com desenhos gravados, preservadas
em escolas e ateliês de artistas. De certa forma, a litografia
retoma seu papel inicial, resgatada como técnica de gravura
para o trabalho criativo do artista.
(Baseado no texto de Márcio Sampaio, encarte
da exposição '25 Anos de Litografia de Arte em Minas Gerais')
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