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TRADIÇÃO MUSICAL DE SÃO JOÃO DEL-REI
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A música setecentista em São João del-Rei

A primeira notícia escrita de atividade musical em São João del-Rei data de 1717, quando o Governador da Capitania de Minas Gerais, Dom Pedro de Almeida e Portugal, conde de Assumar, fez uma visita a antiga vila.

O manuscrito de Samuel Soares de Almeida relata minuciosamente a recepção, descrevendo desde a marcha de entrada da comitiva na vila até a solenidade na Igreja Matriz, ‘ao som de música organizada pelo mestre Antônio do Carmo’. Na Igreja foi entoado o Te Deum, ‘que foi seguido por todo o clero e música’, o que provavelmente indica uma forma alternada de canto em polifonia com os padres cantando um verso gregoriano e o conjunto musical respondendo com um verso musical, tal como se faz, ainda hoje, na cidade.

Daí em diante, o mestre Antônio do Carmo responzabiliza-se pela parte musical de importantes festas realizadas na vila. Em 1724 dirigiu a música na solenidade de benção da nova Matriz. Quatro anos depois, organizou a música para a festa de São João Batista, promovida pelo Senado da Câmara, e, em 1730, os ‘desponsórios dos Sereníssimos Príncipes Nossos Senhores’.

Em 1750 o Senado patrocinou as festas de São José, São Sebastião, São João Batista, Santa Isabel, Nossa Senhora do Pilar, Anjos Custódios, Corpo de Deus e Publicação da Bula, além das exéquias de Dom João V que foram celebradas com grande pompa em São João del-Rei.

Em 1786, o Senado contratou José Francisco Roma e Francisco Martins da Silva como regentes de dois ‘coros’, ou seja, conjuntos vocais e instrumentais, para executarem a música ‘tanto da igreja como de terreiro e rua, incluindo ‘três óperas cantadas’, por ocasião das bodas duplas entre as casa reais de Portugal e Espanha.

Duas corporações musicais

Aos poucos, esta prática provocou a estabilização de duas corporações musicais, que se agregavam de modo a atender às necessidades das instituições religiosas e civis, tendo em vista que o amplo calendário religioso poderia causar a sobreposição de atividades, exigindo assim a existência de grupos musicais autônomos.

Estas corporações eram a Orquestra Lira Sanjoanense e a Orquestra Ribeiro Bastos, ambas sucessoras de grupos musicais criados, certamente, em meados do século XVIII.

Os dois grupos atuaram sempre de forma complementar, dividindo entre si as funções musicais das irmandades religiosas e do Senado da Câmara. Mas a convivência nem sempre foi pacífica, resultando de uma natural e saudável disputa os apelidos de ‘rapadura’ para os membros da Lira Sanjoanense e ‘coalhada’ para os da Ribeiro Bastos. As alcunhas poderiam se referir a cor da pele dos músicos ou, ainda, às instituições religiosas com as quais as orquestras firmavam compromisso. No entanto, sabe-se que ambas as corporações tocavam para instituições de brancos, pardos e negros e que, dificilmente, os membros da Ribeiro Bastos fossem todos brancos.

Música profana

A vida musical são-joanense não se restringiu à ação de suas orquestras sacras. Em diferentes momentos, a cidade contou com diversos conjuntos musicais como o de Lourenço José Fernandes Braziel que se extinguiu em 1833, e a Filarmônica Sanjoanense que funcionou até princípios deste século, promovendo concertos, bailes e participando de apresentações teatrais.

No século atual, a cidade conta com a Sociedade de Concertos Sinfônicos, fundada em 1930. A instituição é a principal responsável pela difusão da música profana na cidade, sobretudo em relação a produção de operetas, que alcançaram notável sucesso popular.

Diversas bandas de música marcaram época na cidade, especialmente a Banda do Regimento de Infantaria Tiradentes, a Banda do Asilo São Francisco, a Banda Santa Cecília e a Banda Municipal, sem falar na quase centenária Banda Theodoro de Faria. Na música popular, destacam-se variados conjuntos de jazz e música instrumental.

Orquestra Lira Sanjoanense

A Orquestra Lira Sanjoanense nasceu do grupo musical que assumiu compromisso com a Irmandade de Nossa Senhora do Rosário em 1776. Liderado pelo mestre José Joaquim de Miranda era conhecida inicialmente como ‘Companhia de Música’, adotando o nome atual somente no século XIX.

Desde o início, prestou serviços musicais também para a Ordem Terceira de Nossa Senhora do Carmo, Arquiconfraria de Nossa Senhora das Mercês e as irmandades de Nossa Senhora da Boa Morte, de São Gonçalo Garcia, de São Miguel e Almas, do Senhor Bom Jesus dos Passos e alguns compromissos da Irmandade do Santíssimo Sacramento. Ainda hoje, executa a parte musical de três missas semanais (às quartas-feiras e aos domingos), das novenas e das festas em louvor aos santos patronos destas irmandades.

Em sua estrutura original, a Lira Sanjoanense era composta de um quarteto vocal (soprano, contralto, tenor e baixo), dois violinos, viola, violoncelo, contrabaixo, duas flautas e duas trompas. O regente era o primeiro violino e as vozes femininas, soprano e contralto, eram cantadas por meninos e homens em falsete, já que as mulheres não podiam atuar em atos litúrgicos. Para as procissões e festas profanas, a Lira contava com uma banda de música, que deixou de existir neste século. A partir daí, a corporação passou a se dedicar somente à música sacra tocada nas igrejas.

Seu arquivo musical reúne não só enorme quantidade de originais e cópias de obras produzidas na região, mas também uma coleção significativa de obras trazidas na época da Corte, da Capitania de Minas Gerais e de outras regiões brasileiras. Entre os nomes consagrados da música regional, estão alguns regentes da Orquestra Lira Sanjoanense, conhecidos a partir de pesquisas feitas pelo maestro Pedro de Souza em arquivos religiosos da cidade.

O compositor Padre José Maria Xavier, expoente maior da música do século XIX na região do Rio das Mortes, foi músico da Lira Sanjoanense. Considerado um verdadeiro reformador do repertório religioso local, algumas de suas obras tornaram-se tradicionais em celebrações como o Natal e a Semana Santa, substituindo obras setecentistas destinadas às mesmas solenidades.

A preocupação com a formação de jovens músicos fez surgir, recentemente, um coro infantil e, também, um curso especial de violino, que motivou a criação de uma orquestra de câmara, cujas apresentações alcançam sucesso em São João del-Rei e cidades vizinhas. Muitos de seus músicos têm procurado aprimoramento musical, buscando formação superior até mesmo no exterior.

Localização: Rua Santo Antônio, 45 – Centro.

Orquestra Ribeiro Bastos

Não existem documentos que registrem a criação da Orquestra Ribeiro Bastos, embora possa se supor que a corporação descenda de um dos dois grupos musicais atuantes na Vila de São João del-Rei desde meados do século XVIII.

A Ribeiro Bastos mantém, ainda hoje, a maioria de seus compromissos tradicionais com a Ordem Terceira de São Francisco de Assis e com as irmandades de Nosso Senhor dos Passos e do Santíssimo Sacramento feitos naquela época. Três missas semanais (às quintas-feiras, sextas-feiras e aos domingos), novenas e festas religiosas como a Semana Santa e o Corpus Christi, patrocinadas por aquelas irmandades, têm sua parte musical executada pelos músicos da orquestra.

A orquestra possui importante coleção de manuscritos musicais, constituído principalmente de obras destinadas às celebrações religiosas de sua responsabilidade, como também inúmeras partituras de músicas de salão do final do século XIX e início do século XX, quando muitos de seus músicos tocavam para o cinema mudo.

Nesta época, a Ribeiro Bastos participou ativamente de espetáculos profanos, como a ‘Festa Musical da Orquestra Ribeiro Bastos’, em 1888, quando o grupo se apresentou antes de uma peça teatral. Esta prática musical acabou por propiciar a formação do Clube Ribeiro Bastos, que promoveu concertos até pelo menos 1936. Entre 1901 e 1920, o Clube organizou uma série dos chamados Concertos Populares, nos quais revelou importantes obras do repertório sinfônico e de câmara à comunidade são-joanense.

Até a primeira metade do século XX, a Ribeiro Bastos possuía orquestra e banda, para atender às procissões e festas profanas. Uma desavença entre os músicos fez nascer a Banda de Música Theodoro de Faria, que assumiu os compromissos musicais da Banda Ribeiro Bastos.

A formação de jovens músicos sempre foi uma preocupação da Orquestra Ribeiro Bastos. Curiosamente, estes músicos têm buscado se profissionalizar, rompendo com o amadorismo que se verificou a partir deste século, quando as centenárias corporações passaram a contar com integrantes preocupados, sobretudo, em preservar a prática musical herdada a despeito de sua capacidade técnico-artística.

Localização: Rua Santo Antônio, 54 – Centro.

Banda de Música Thedoro de Faria

Com quase cem anos de existência, a Banda de Música Theodoro de Faria é a mais tradicional da cidade. Surgiu em 1902 a partir de uma ruptura entre músicos da Orquestra Ribeiro Bastos, quando parte deles acompanhou o mestre Augusto Teodoro de Faria e fundou uma nova corporação musical.

O mestre Teodoro de Faria esteve à frente da corporação até 1917, quando o maestro Teófilo Inácio Rodrigues assumiu sua direção, dando-lhe o nome e a estrutura jurídica atuais. Desde 1967, a banda possui sede própria na rua Santo Antônio, onde estão localizadas também as centenárias orquestras de música sacra da cidade.

Seu arquivo musical, proveniente da Orquestra Ribeiro Bastos, reúne importantes manuscritos dos séculos XVIII e XIX. Como no passado, a corporação tem como preocupação a formação de novos músicos, já que muitos de seus integrantes acabam por fazer carreira como músicos militares. Assim, desde 1917 a banda mantém uma escola de música gratuita.

Há quase um século a Banda de Música Theodoro de Faria assegura a parte musical das procissões realizadas pelas irmandades, confrarias e ordens terceiras de São João del-Rei, e participa também das festas populares da cidade.

Localização: Rua Santo Antônio, 289 – Centro.

Sinos

São João del-Rei é uma cidade de fortes tradições. Além das solenidades religiosas e da música sacra preservada por suas centenárias orquestras, a cidade mantém vivo o costume de pontuar os acontecimentos do cotidiano com o toque dos sinos de suas numerosas igrejas e capelas.

Esta tradição teve origem na época colonial. À medida que os arraiais mineradores se desenvolviam, as primeiras capelas erguidas eram ampliadas ou transformadas em igrejas, ganhando torres nas quais um ou mais sinos eram fixados.

Eles representavam um elo de ligação entre o clero e seus fiéis, congregando a comunidade para situações diversas — religiosas ou profanas. Quando nascia o filho de uma autoridade, o sino principal do local anunciava o feliz acontecimento, informando, ainda, o sexo da criança: se menino, ouvia-se nove pancadas no sino grande; se menina, sete pancadas no sino médio ou grande.

Para cada acontecimento existia um código sonoro estabelecido e conhecido por toda a comunidade, que se manteve preservado na memória dos são-joanenses. No século XIX, viajantes estrangeiros comentaram sobre o uso dos sinos nas cidades brasileiras, e, na maioria das vezes, reclamavam do abuso de toques. Em 1868, o inglês Richard Burton relatava o que acontecia em São João del-Rei: “durante todo o dia e metade da noite, escuta-se o dobre, toque vagaroso, quando é usada a corda, e o repique, toque ligeiro, em que o badalo é manejado com a mão. Era uma fornalha de música, uma sinfonia de tempestade”.

Ainda hoje, homens, mulheres e crianças sabem interpretar a linguagem singular dos sinos, que avisa sobre missas e seus celebrantes, procissões e solenidades religiosas, nascimentos, falecimentos, enterros e datas comemorativas. Se a missa for festiva, há repique no início e final da celebração; se for solene, há repique com dobre duplo do sino grande. A hora do Angelus é marcada por nove badaladas diárias durante todo o ano, exceto na sexta-feira e sábado santos. Na véspera de Natal, as igrejas que celebram a missa do Galo tocam seus sinos simultaneamente, anunciando o nascimento de Jesus Cristo.

Mas, sem dúvida, o mais belo repique de São João del-Rei é tocado na tradicional Festa de Nossa Senhora da Boa Morte. No dia 14 de agosto, inicia-se o repique ‘Senhora é morta’ com os quatro sinos da torre esquerda da igreja. Este repique prolonga-se até o dia 15 de agosto, sendo tocado de hora em hora a partir das seis da manhã. Nestes dois dias, o repique é reforçado pelo dobre compassado do sino da torre da direita às 12h, 15h e 18 horas. Na missa do dia 15 todos os sinos da paróquia repicam festivamente, anunciando a Assunção de Nossa Senhora.

Há, ainda, códigos especiais que marcam eventos importantes do calendário litúrgico. Na Semana Santa, todos os sinos da cidade emudecem na quinta-feira, no intervalo entre a Missa da Ceia do Senhor e a Missa da Vigília Pascal. Seja qual for o motivo, nenhum sino pode ser tocado durante este período, nem mesmo aqueles que marcam as horas no relógio da Matriz de Nossa Senhora do Pilar.

José Maria Neves

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