| PANORAMA HISTÓRICO DA ANTIGA
COMARCA DO RIO DAS MORTES |
Inserida
no amplo contexto colonial brasileiro, a história da
Comarca do Rio das Mortes, parte da antiga Capitania das Minas
Gerais, representou como o restante da colônia um novo
espaço no processo de expansão colonialista
da Coroa Portuguesa.
O
desejo de encontrar o eldorado estimulou aventureiros portugueses
e brasileiros a se arriscarem pelos sertões em busca
de riquezas minerais. Foram os bandeirantes paulistas os primeiros
desbravadores da região que, mais tarde, passou a ser
conhecida pela abundância do ouro ali encontrado. Muitas
vezes, contavam com o apoio do governo português, que
se empenhava em ver realizado o sonho de enriquecimento a
partir da descoberta de metais preciosos, como havia ocorrido
nas regiões de colonização espanhola.
As
dificuldades encontradas foram diversas, desde a geografia
montanhosa, a inexistência de caminhos, o risco de doenças
e a ameaça indígena. Os habitantes desta região
eram os índios cataguases a tribo mais temida
pelos bandeirantes, com fama de terem hábitos cruéis
e até mesmo antropofágicos. Porém, a
força armada do homem branco era naturalmente superior
e os indígenas foram forçadamente adaptados
às novas condições de vida.
Vencida
a resistência indígena, o acesso aos campos gerais
tornou-se mais fácil, especialmente entre os anos de
1693 e 1695, quando foi descoberta enorme quantidade de ouro
de aluvião nas proximidades dos rio São Francisco,
Doce e das Velhas.
Pela
sua localização, a região do Rio das
Mortes tornou-se passagem obrigatória para aqueles
que, transpondo o Rio Grande e a Serra da Mantiqueira, vinham
de São Paulo ou do Rio de Janeiro para as comarcas
de Sabará e Vila Rica, nos primeiros anos da exploração
aurífera.
Em
meio a este caminho, havia um local denominado Porto Real
da Passagem, em que o paulista Tomé Portes del Rei
exercia o direito de cobrança pela passagem no rio
das Mortes. Aí se formou o primitivo núcleo
de povoamento compreendido entre os atuais municípios
de São João del-Rei e Tiradentes. Esta rota
ficou conhecida como Caminho Velho em oposição
ao depois Caminho Novo, que, anos mais tarde, cortaria a região
mineradora.
Naturalmente,
a exploração das jazidas de ouro e a necessidade
de moradia e incremento comercial de bens de consumo para
os mineradores proporcionou o surgimento do Arraial Velho
do Rio das Mortes (atual Tiradentes) em 1701 e do Arraial
Novo do Rio das Mortes (hoje São João del-Rei)
por volta de 1704. A partir daí, surgiram outros núcleos
de povoamento, dando origem à localidades como Prados,
Lagoa Dourada, Carrancas e Resende Costa.
No
entanto, a ocupação da região mineradora
não se daria de maneira pacífica. Além
dos conflitos com os nativos, ocorreram sérias divergências
entre paulistas e forasteiros, sobretudo portugueses e brasileiros
do norte do país. A inexistência de uma autoridade
constituída provocou a chamada Guerra dos Emboabas,
nome pejorativo dado àqueles que vinham de Portugal
e das ilhas Atlânticas e se digiram à região
das minas de ouro.
Os
anos de 1707 e 1709 foram marcados por intensa luta armada,
caracterizando a superioridade dos emboabas, que passaram
a controlar as principais datas auríferas e provocaram
o deslocamento dos paulistas para áreas mais afastadas
ao longo do Rio das Mortes.
O
episódio conhecido como Capão da Traição,
ocorrido em local próximo ao Rio das Mortes, provavelmente
em 1708, marcou com violência a vitória final
dos portugueses sobre os paulistas. Inúmeras lendas
relatam o episódio como "... o mais horrendo acontecimento
(...) em razão do qual tomou o sítio em que
se deu tal episódio o nome de Capão da Traição".
A
necessária intervenção das autoridades
coloniais no sentido de solucionar o conflito alertou a metrópole
para a criação e regularização
de órgãos administrativos no âmbito da
justiça e da ação fiscal. Entre as primeiras
medidas oficiais estaria a distribuição de datas
e sesmarias, definindo-se territórios e seus respectivos
proprietários. Em 1710, a Capitania de São Paulo
e Minas do Ouro é criada, sendo escolhido para governador
Antônio de Albuquerque Coelho de Carvalho. No ano seguinte,
alguns arraiais mineradores são transformados nas primeiras
vilas da capitania recém-criada.
Em
1714, as jurisdições das comarcas mineiras são
definidas pelo então governador da capitania, Dom Braz
Baltazar da Silveira. Nesta época, a Vila de São
João del-Rei é eleita a principal vila da Comarca
do Rio das Mortes e diversas localidades consolidam-se, como
no caso das vilas de São José del-Rei, de Nossa
Senhora da Conceição de Prados, de Santa Rita
do Rio Abaixo (atual Ritápolis) e do povoado de Mosquito
(hoje, Coronel Xavier Chaves).
Porém,
em meados do século XVIII, já se vislumbram
sinais da decadência aurífera com o esgotamento
de muitas minas de ouro, levando ao conseqüente enfraquecimento
do pacto colonial. A Comarca do Rio das Mortes, como uma das
mais importantes regiões mineradoras, é também
afetada pelo rígido controle instituído nas
vilas e arraiais mineradores a partir da atuação
do Marquês de Pombal.
A
cobrança de impostos foi a solução encontrada
para que a metrópole continuasse a acumular as riquezas
extraídas da colônia. O mais comum deles era
o dízimo, quase sempre cobrado por um contratador,
que era obrigado a recolher um certa quantia ao Erário
real em troca do que conseguisse arrecadar.
Além
disso, o ideário liberal de Rousseau, Montesquieu e
Voltaire desperta a consciência libertária de
membros da classe dominante e da pequena burguesia mineira,
que se sentem prejudicados pelo monopólio reinol e
pela exaustiva cobrança de impostos. Em 1789, a Comarca
do Rio das Mortes envolve-se no mais importante movimento
revolucionário da época a Inconfidência
Mineira.
Diversas
personalidades da região foram apontadas como membros
do movimento, entre eles o padre Carlos Corrêa de Toledo
e Mello, vigário da freguesia de Santo Antônio
na Vila de São José del-Rei, Inácio José
de Alvarenga Peixoto, ouvidor da Vila de São João
del-Rei, além do capitão José de Resende
Costa e dos alferes Vitoriano Gonçalves Veloso e Joaquim
José da Silva Xavier.
Do
ponto de vista econômico, a crise da atividade mineradora,
ao contrário de representar estagnação
como ocorrera em outras vilas e arraiais da Capitania de Minas
Gerais, incrementou novas atividades a partir da pecuária
e da produção agrícola.
Desta
forma, a região volta-se para a produção
e o abastecimento de bens de consumo, especialmente das vilas
vizinhas que ainda se dedicavam à exploração
aurífera, como Sabará e Vila Rica, atingindo,
mais tarde, até mesmo o Rio de Janeiro. Além
da agricultura e da pecuária, a região produzia
laticiníos, suínos, algodão e couro.
A
atividade manufatureira representou outra opção
econômica, a exemplo da fiação e da tecelagem.
A despeito das proibições intituídas
pelo alvará régio baixado pela Rainha D. Maria
I, em 1785, que ordenava o fechamento de todas as atividades
manufatureiras, fraudes e desvios de toda a espécie
garantiram a permanência destas atividades, causando
boa impressão aos viajantes europeus que aqui chegavam.
Em
1880, a implantação da Estrada de Ferro Oeste-Minas
amplia a comunicação da região com outros
centros, incrementando a vida política e econômica
da região. São João del-Rei desponta
como o município mais desenvolvido, enquanto Tiradentes,
Prados e outras localidades se mantêm mais acanhadas
e dependentes do próspero comércio são-joanense.
Nesta época esboça-se uma incipiente industrialização,
surgindo as primeiras fábricas de tecidos da região,
como a Companhia Industrial São-joanense, instalada
em 1891, e também a indústria alimentícia,
consubstanciada na tradição laticínia.
O
século XX vem confirmar a vocação comercial
da região, que chega a possuir inúmeros estabelecimentos
com mercadorias importadas, desde tecidos até automóveis.
Hoje, além da agricultura, da pecuária e do
comércio, a atividade turística é também
importante fonte de renda, incrementada pelos cenários
urbanos bastante preservados das cidades de São João
del-Rei, Tiradentes e Prados e pelo charme provinciano de
Coronel Xavier Chaves e Resende Costa.
(Cristina
Ávila)
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